Ele saiu do jardim e escreveu seu nome com giz no muro uma última vez, sozinho, lembrava-se bem de tudo o que acontecera durante aquele tempo, não voltaria mais ali. Ela, colocou suas coisas na bolsa, não sem antes arrumar o cabelo ou passar aquele mesmo batom que usava desde que se conheceram, ele gostava daquela cor na sua boca, foi a última vez que usou aquela cor.
Havia muito tempo se encontravam todos os dias ao lado daquelas mesmas árvores que floresciam fosse inverno ou verão, elas pareciam não distinguir quando era tempo de abrir ou tempo de não ter folhas, como no outono, eles, tal qual, se encontravam sempre ali, as vezes saiam pra jantar, tomavam um bom vinho, ou alguma outra bebida que lhes parecesse agradável, algo que combinasse com a blusa que ela usava ou com a camisa um pouco amassada dele.
Não naquele dia.
Se sentaram sob a luz da tarde pouco ensolarada, era verão mas tinha uma brisa de chuva que em algum momento, lembro-me, os braços dela se arrepiaram, instintivamente ele tentou aquece-la, ao perceber, baixou os braços, ele, mesmo sem ver pode sentir seu olhar, aqueles olhos que outrora, que outrora foram seus.
Ficaram ali sem trocar palavras talvez o dia todo, e a noite, pareciam que estavam ali imóveis como aquelas gigantes centenárias ao seu lado, a tanto tempo quanto. Não havia mais necessidade de palavras, a verdade reluzia como um farol anunciando que logo a frente estavam os rochedos, ainda assim brilhava, brilhava ainda mais em suas mãos finas e delicadas, parecia lhe pesar.
Lembraram-se silenciosos de tudo o que acontecera e de como haviam chegado ali, desde que ele, nem sabiam direito quando, havia aberto o primeiro sorriso após aparecer atrapalhado na frente dela derubando tudo o que havia em sua bolsa, que ela, sem perceber havia esquecido aberta. Ela nunca soube resistir de fato ao sorriso dele. Ao se lembrar ela pareceu abrir um sorriso, os olhos dele brilharam por um momento, apenas por um momento e não mais.
Sem mais sorrisos, sem mais carinhos ou afeto, sem mais brincadeiras, sem mais vinhos, entre eles só havia o mar e o dourado.
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