Era inverno, mas somente em seus pensamentos, ainda assim, era inverno. Era inverno, lá fora a noite fria cobria os pastos com uma fina camada de gelo, era um dia daqueles em que era possível ver a respiração da gente, os cavalos já haviam sido recolhidos, desencilhados e limpos após uma longa cavalgada sob o sol que pouco lhes aquecia, mas que lhes trazia o conforto dos seus dias.
Era noite, mas talvez fosse fim de tarde também, poderia ser qualquer hora entre as cinco e o fim do dia, entre o anoitecer ou depois, já não lhes importava o tempo, lá este não existia, não tinha poder, lá o tempo parava como estavam parados os galhos das árvores antes de ventar, como paraiva o beija-flor no ar, imóvel, lá nada mais os alcançava.
Estava frio, mas lá dentro algo os mantia aquecidos. Poderia ser o chocolate quente que ela havia preparado enquanto ele, sem aguentar sua ausencia, lhe agarrava pela cintura. Poderia ser somente aqueles mesmo sorrisos que trocaram ali mesmo na cozinha, entre o tempo de esquentar o leite e por fim sentir o aroma de cacau no ar. Algo os mantia ali como se nada mais houvesse, como se ali fosse o próprio estado de vida. Poderia ser o aconchego do calor das labaredas que brotavam na lareira e que muito pouco iluminavam, mas que dava aquele tom amarelo às paredes e aos móveis de madeira antiga, poderia ser o tapete de lã no chão, o mesmo tapete em que antes haviam se amado, ali mesmo sob aquela mesma luz.
Talvez fosse o pelo curto do cão que enlaçava suas pernas, ou os cabelos que repousavam em seu colo, talvez fosse essa estranha proximidade, talvez fosse somente a presença de um e de outro, aquela presença que aconchegava e tomava conta de toda a casa, aquela estranha cumplicidade que havia. Ouso dizer que o calor que havia vinha certamente de seus olhos, de como se olhavam perto, de como a cor dos olhos mudava, ouso dizer que vinha da pele, do desejo, que vinha do tom da voz, dos sorrisos.
Não sabiam direito de onde vinha aquele dia, mas ele estava ali, perdindo em alguma memória de algo que ainda não havia acontecido, mas que deixava saudades ainda assim.
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