sexta-feira, 4 de maio de 2012

Dia Branco

Então ela fechou os olhos e pode sentir a brisa do fim de tarde lhe tocando a face. Ela conseguia sentir o cheiro quase doce das flores que foram tão delicadamente escolhidas, uma a uma, e havia o barulho das poucas crianças no fundo.
Depois de tanto tempo ainda sentia aquele frio só de pensar no que aconteceria, agora, em poucos minutos.
E havia um sorriso imenso no seu rosto, não saberia de fato dizer se era nervoso ou só a felicidade transbordando, mas sorria mesmo assim.
Era quase fim de tarde, o pôr do sol tinha todas as cores que ela imaginara, todos os tons e as luzes. Havia também um cheiro de madeira nova, um cheiro de árvore e quase, quase um cheiro de grama cortada. O ar a sua volta se modificara, era leve e ela quase flutuava nele.
Fechou os olhos e apertou com força as mãos vazias, mas seu coração uma vez mais disparava, sentia o calor, sentia a presença, quase podia tocar, seus olhos quase marejaram, então, nesse momento se viram, sorriram, não havia mais ninguém.
Era domingo, era sua música que tocava, e tudo fazia sentido.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sujou as mãos com as tintas que pintava as telas que jamais iria expor. Brilhou nos olhos a luz do dia novo que lá fora surgia, arqueou as costas e com um sorriso se cobriu com suas asas. Sentou-se na borda do terraço da vida e observou todo o resto de fora.

Na janela do outro lado da rua ela pintava seus olhos e ajeitava a saia, seu sorriso luzia como o sol que já fazia lá fora e eram seis da manhã, havia dormido tarde aquela noite, como todas as outras das últimas semanas, sentou na sacada, acendeu um cigarro pra acompanhar o café

Sairam os dois pelas ruas numa manhã que não era de verão e não era de estação nenhuma, ele de sobretudo, ela com as pernas expostas e um casaco meio comprido. Ela ouvia a nova MPB nos seus fones brancos, ele cantarolava algum rock inglês, havia algo de estranho que não sabiam dizer, estava cercados de gente e concreto, o tempo passava num ritmo diferente quase aquela sensação de slow motion.

Ela parou em um café e pediu qualquer coisa pra alegrar o dia, ainda que nada parecesse triste em sua companhia, ele parou pra comprar um jornal do outro lado da esquina enquanto esperava o sinal abrir, poderiam nunca ter se visto e seria um dia como qualquer outro. O sinal abriu, abriu no exato momento em que ela saiu do café, com o lábio ainda sujo de creme, foi nesse momento que seus olhares se cruzaram. Não entenderam a princípio, havia um vento um pouco frio, que trouxe até ele o aroma do café que ela tomava misturado com o cheiro daquele perfume que ele jamais esqueceria, ela baixou os olhos tentando conter aquela vontade de abraçar aquele estranho, ele ria nervoso sem saber onde colocar as mãos.

Sem trocar uma palavra continuaram seu caminho. Ele nunca esqueceu aqueles olhos, ela o branco que saia de suas costas largas.

[30/11/2011]