havia dias em que nada parecia fazer sentido. sentia suas mãos frias, secas. sentia falta daquilo que houvera um dia, mesmo que só por um dia gostaria de lembrar como era bom. já não sabia ao certo se sentia falta das lembranças ou de quem as causara, ou ainda, se esta lembrança que ele guardava era de fato verdadeira ou só mais uma criação da sua mente já insana. quis se atirar pelas janelas, sair voando sem rumo, correndo pelo mundo sem precisar voltar, quis fugir. já era tarde da noite o dia logo amanheceria. mas ele se sentia como um gato acuado, sem destino certo se não a rua. aquele vazio de não saber de ti lhe incomodava, lhe feria, tanto que já nem sabia de si. andava perdido e sem rumo, cavando buracos em outros peitos para se esconder da solidão que o perseguia. queria um choque, queria algo que o fizesse tremer. a monotonia do nada já o deixara louco. queria um porre, qualquer coisa que o fizesse esquecer do que já nem lembrava mais. corria o tempo por entre os dedos, corria os olhos sem encontrar nada em que pudesse se agarrar. estava solto no universo como uma pluma que paira no ar. parado. estático, sem poder se mexer. e permaneceu ali, não mais intacto, agora sangrando. morria mais rápido que pudera prever e agora tinha medo.
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